Este exercício é puramente exploratório, feito a título de curiosidade, sem pretensões inferenciais ou hipotético-dedutivas. Logo, não houve uma preocupação teórica para a escolha das variáveis incluídas nos modelos. Aqui, explora-se quais os condicionantes, no Brasil, do apoio à afirmação de que o governo deveria levar em consideração estudos feitos por professores e cientistas das universidades na escolha de políticas públicas. Para tal, são realizadas regressões logísticas multivariadas.
Os dados, retirados do The AmericasBarometer, Latin American Public Opinion Project (LAPOP), representam uma amostra representativa da população brasileira, referente ao ano de 2018. Ao todo, são 1498 observações — sem descontar valores faltantes. O primeiro modelo (M1) expõe as variáveis socioeconômicas; já o segundo (M2) adiciona às variáveis do modelo anterior fatores atitudinais, ou seja, referentes às preferências dos entrevistados.
Focando no segundo modelo, há apenas duas variáveis estatisticamente significantes: preferir a democracia como forma de governo (p = 0.00003) e afirmar entender de política (p = 0.037). Respectivamente, elas estão associadas com um acréscimo de 151% e 67% nas chances de concordar com a afirmação de que o governo deveria levar em consideração estudos feitos por professores e cientistas das universidades na escolha de políticas públicas. A variável com maior associação negativa a essa proposição diz respeito à religiosidade dos entrevistados. Afirmar ter alguma religião está associado com um decréscimo de 51% nas chances; contudo, sem significância estatística (p = 0.5).
Quadro 1 - modelos de regressão logística, afirmar que o governo deve levar em consideração professores e cientistas na produção de políticas públicas
| M1: socioecon. | M2: socioecon. + atitudinal | |
|---|---|---|
| Intercepto | 263.63** | 415.48 |
| (0.49) | (1.22) | |
| Afirmar ser do sexo masculino | 6.54 | -5.74 |
| (0.19) | (0.22) | |
| Acréscimos em anos de idade | -0.17 | -0.94 |
| (0.01) | (0.01) | |
| Acréscimos na paleta de cor de pele | -3.27 | -1.90 |
| (0.05) | (0.05) | |
| Acréscimos em anos de escolaridade | 5.17 | 3.45 |
| (0.03) | (0.03) | |
| Acréscimos na renda (quintil) | 5.49 | 4.79 |
| (0.06) | (0.07) | |
| Afirmar ser religioso(a) | -50.83 | |
| (1.05) | ||
| Acompanhar notícias frequentemente | 23.53 | |
| (0.40) | ||
| Crer que o maior problema é a má quali. da educ. | 21.73 | |
| (0.56) | ||
| Afirmar entender de política | 66.85* | |
| (0.25) | ||
| Preferir a democracia como forma de governo | 150.87*** | |
| (0.22) | ||
| Ser de direita | 4.20 | |
| (0.22) | ||
| Num. obs. | 869 | 772 |
| ***p < 0.001; **p < 0.01; *p < 0.05 | ||
A Imagem 1 ilustra os resultados do segundo modelo. Em verde, as variáveis estatisticamente significantes associadas com um acréscimo nas chances de concordar com a afirmação; em azul, as que também contribuem positivamente, mas que não demonstram significância estatística; em vermelho, as congruentes com um decréscimo nas chances. Para verificar os valores exatos de cada barra, basta passar o mouse sobre elas.
Imagem 1 - M2, afirmar que o governo deve levar em consideração professores e cientistas na produção de políticas públicas
Coeficientes apresentados como mudança percentual na razão de chance. Número de observações: 772. *** p < 0.001; * p < 0.05. Elaboração própria.Por sua vez, a Imagem 2 mostra uma homogeneidade entre os entrevistados que discordam da afirmação de que o governo deveria consultar professores e cientistas na produção de políticas públicas. Para tal, emprega-se uma análise de agrupamento k-means, que particiona as observações (pessoas que discordam da afirmação) através de um número k de agrupamentos, cujas dimensões são dadas pelas variáveis que compõem o Modelo 2. Observa-se que, embora dois agrupamentos tenham sido identificados, eles se sobrepõem amplamente. É possível argumentar, portanto, que não há grandes clivagens entre os brasileiros contrários à afirmação.
Imagem 2 - análise de agrupamento, pessoas contrárias à afirmação em foco